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Será que alguém ainda se preocupa com a verdade?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.08.11

Há quem procure o fantástico em cinema, eu procuro o autêntico, o verosímil. Seja de forma realista (aproximada do documentário) ou metafórica (aproximando-se da poesia, da pintura, do teatro). O que importa para mim é a busca da verdade (filosófica ou científica). 

Todas as expressões artísticas são, a meu ver, formas de analisar e reflectir a vida, as pessoas, os afectos, o mundo, o universo. Do mais simples ao mais complexo, do menor para o maior. Um simples dia no percurso de um anónimo pode dar um filme riquíssimo em informações sobre a nossa natureza, as nossas dúvidas, angústias, alegrias, tristezas. A questão está na forma de pegar num tema e desenrolá-lo em linguagem própria do cinema.

 

Ultimamente dei por mim a ver filmes sobre a guerra do Iraque: Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone).

São todos construídos de forma muito aproximada do documentário, o que os torna verosímeis e credíveis. E o que lhes dá mais força e impacto. Transportam-nos para aqueles ambientes caóticos, em que a vida se torna repentinamente frágil, descartável, desamparada. É o ambiente de guerra, a sensação de alerta constante, o medo permanente. Nada é estável, seguro, fiável. Nem as informações por detrás da acção das personagens. 

 

Não consigo deixar de pensar que é este mundo caótico que parece estar a alastrar-se sem controle. A todos os níveis: económico, político, social, tecnológico, mental. Quando não se diz a verdade às pessoas, jogando com as suas vidas, sangue e ossos, com as suas famílias e afectos, o que se pode esperar de quem gere o poder?

  

Jogo Limpo acompanha a construção de uma versão da realidade que possa justificar a invasão do Iraque, apanhando pelo caminho uma agente da CIA e o marido, um embaixador. O filme está construído com ritmo, à volta da família e dos amigos mais próximos, de uma secção dos gabinetes da CIA e nas zonas críticas do globo. Subliminarmente pressentimos uma mensagem pedagógica, pelo exemplo das personagens que persistiram na desmontagem da mentira oficial: vale a pena defender os princípios da democracia, o valor da liberdade e do direito à informação.

 

Jogo de Peões evidencia, de forma mais dramatizada aproximando-se da linguagem do teatro, as diversas faces do poder: o político ambicioso que tem nas mãos a capacidade de jogar com vidas para conseguir protagonismo; a jornalista que, na impossibilidade de desmontar a informação fabricada e dizer a verdade, tem um poder relativo, mas enorme, de não voltar a deixar-se manipular; o professor que ainda pode influenciar a vida e o percurso dos seus alunos, desafiando-os a reflectir, a pensar pela sua própria cabeça, a procurar ver por detrás da informação que lhes é dada, a viver de forma consciente, activa, consequente, e não alienada, conformista, decadente. Finalmente, o poder muito relativo dos jovens decidirem da forma mais saudável e criativa, porque condicionados pelos valores dominantes e pelas suas condições de vida. A pressão do ambiente em que se cresce e vive é enorme, e isto é exacerbado na idade impressionável. Magnífica cena e magnífica line do professor, a jogar a última cartada, questionando o aluno promissor se conseguiria viver sem se preocupar com o que se passa à sua volta. A line segue mais ou menos esta ideia: Não voltarás a ter as capacidades que tens hoje, a mesma inteligência e criatividade. Tudo passa demasiado depressa.

 

Green Zone leva-nos ao cenário da guerra e mantém-nos lá: o soldado, a jornalista, o general, o político. Estão lá todos. E tudo gira à volta da verdade. O ritmo das cenas acelera, sincopadamente e sem tempo para reagir. Percebemos que a vida depende dessa capacidade de reacção, da rapidez, da agilidade. Percebemos que nestes cenários as pessoas são tratadas como ratos de laboratório e já se comportam como tal. No final a mentira fabricada é desmascarada mas sentimos que esta foi apenas uma etapa na loucura geral. Nunca subestimar a inesgotável capacidade humana de consumir ficção. É o que percebo na maioria das pessoas: tolerar que lhes mintam, que as enganem, que as iludam, que as embalem.

 

 

 

 

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publicado às 11:35


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